terça-feira, 22 de agosto de 2017

~~ ALDA LARA ~~




Tradução - Aqui


Alda Lara com o marido, médico e escritor
e os filhos Pedro, João e Luís


Já referi que Alda Lara frequentou a Casa dos Estudantes do Império
em Lisboa, animando saraus e tertúlias, sendo excelente declamadora.
Quando começaram  a proliferar os primeiros ideais de guerrilha,
que repugnavam a poetisa, mudou-se com o marido para Coimbra.
Não conheço a base real deste poema, mas tendo-os conhecido
tão bem, tenho a certeza que estes «abutres» referem-se aos agentes
da polícia de defesa do estado, durante a ditadura fascista.




Meu Bergantim

Meu bergantim, onde vens,
Que não te posso avistar?
Bergantim! Meu bergantim!
Quero partir rumo ao mar...
Tenho pressa! Tenho pressa!
Já vejo abutres voando
Além, por cima de mim...
Tenho medo... Tenho medo
de me não chegar ao fim.


Meus braços estão torcidos,
Minha boca foi rasgada.
Mas os olhos, estão bem vivos,
E esperam, presos ao Céu...
Que haverá p'ra além da noite?
Para além da noite de breu?


Ah! Bergantim, como tardas...
Não vês meu corpo jazendo
Na praia, do mar esquecido?...
Esse mar que eu quis viver
E sacudir e beijar,
Sem ondas mansas cobrindo-o...
Quem dera viesses já...
Que vai ficando bem tarde!
E eu não me quero acabar,
Sem ver o que há para além
Deste grande, imenso céu
E desta noite de breu...


Não quero morrer serena
Em cada hora que passa
Sem conseguir avistar-te...
Com o meu olhar enxergando
Apenas a noite escura,
E as aves negras, voando...


Poderá gostar de ler estes posts sobre a poetisa em I e II

Fotos de Praias de Benguela: Morena, Baía Azul e da Baía Farta. Clique sobre uma.

Fontes das fotos - A - B - C - D 

15 comentários:

  1. Gosto de Alda Lara, e a seu poema "Interlúdio" cantado pelo Paulo de Carvalho é um dos mais belos que conheço dela.
    Este também é belo.
    Gostei muito da interpretação.
    Uma belissima Postagem.
    Boa semana.
    beijinhos
    :)

    Prelúdio

    Pela estrada desce a noite
    Mãe-Negra desce com ela.

    Nem buganvílias vermelhas,
    nem vestidinhos de folhos,
    nem brincadeiras de guizos
    nas suas mãos apertadas...

    Só duas lágrimas grossas,
    em duas faces cansadas.

    Mãe-Negra tem voz de vento,
    voz de silêncio batendo
    nas folhas do cajueiro...
    tem voz de noite descendo
    de mansinho pela estrada.

    ... Que é feito desses meninos
    que gostava de embalar?
    Que é feito desses meninos
    que ela ajudou a criar?
    Quem ouve agora as histórias
    que costumava contar?...

    Mãe-Negra não sabe nada.
    Mas ai de quem sabe tudo,
    como eu sei tudo,
    Mãe-Negra...

    É que os meninos cresceram,
    e esqueceram
    as histórias
    que costumavas contar...
    Muitos partiram pra longe,
    quem sabe se hão de voltar!...

    Só tu ficaste esperando,
    mãos cruzadas no regaços,
    bem quieta, bem calada...

    É tua a voz deste vento,
    desta saudade descendo
    de mansinho pela estrada...

    Autor :Alda Lara

    ResponderEliminar
  2. Olá, Majo!
    Nesta sua postagem conheci Alda Lara e o poema "Meu Bergantim", de autoria da poetisa. Sem dúvida, um belo poema. Parabéns.
    Um abraço.
    Pedro

    ResponderEliminar
  3. A Alda em seu mais profundo canto de tristeza e indignação diante um regime perverso.
    A poesia intra-historia para fazer entender o que se faz em detrimento da vida humana.
    Não se concebe e os intelectuais sofrem e expõem de maneira sutil seu descontentamento diante este cálice tinto de sangue, como bem o fez por aqui o Chico Buarque.Driblando a censura boba e tola.
    Bela partilha Majo é preciso divulgar o berço com toda sua historia marcada pela violência, discriminação repugnante.
    Meu carinhoso abraço de toda paz.
    Que você esteja bem mesmo.
    Beijos

    ResponderEliminar
  4. Bom dia minha amiga.

    Passo para te ler e dar os bons dias .

    Sem tempo para outras coisas que não sejam as da infância.

    Saude e dia bom.

    Ana

    ResponderEliminar
  5. Traz-nos mais uma vez Alda Lara. Gosto muito da poesia que ela escreveu. Interessante tê-la conhecido pessoalmente bem com à família. Assim os laços são mais fortes.
    Um beijo, minha Amiga Majo.

    ResponderEliminar
  6. Excelente postagem, esta!!

    Beijinhos e um dia feliz

    ResponderEliminar
  7. Grata por mais uma partilha cultural. A poetisa merece!
    Um beijinho

    ResponderEliminar
  8. "Conheço" Alda Lara e foi muito bom encontrá-la aqui neste belo post,
    tendo o prazer de reler os seus belos e interventivos versos.

    Obrigada, Majo.

    Bj

    Olinda

    ResponderEliminar
  9. os poetas deixam transbordar nas palavras por decifrar as dores que vão na alma.
    bjs

    ResponderEliminar
  10. Foi bom lembrar de novo Alda Lara. Partiu muito nova, mas a sua obra fica para sempre!
    Abraço,

    ResponderEliminar
  11. A grande poetisa se desnuda em indignação e dor derramadas com peculiar beleza nos versos deste fabuloso poema. Magnífica partilha, Majo
    Beijos minha estimada amiga

    ResponderEliminar
  12. Mais um delicioso apontamento sobre Alda Lara.
    Este belo poema, além da sua natureza interventiva, tem um ritmo (e métrica) que se adequaria muito bem a uma canção.
    Grata pela partilha. Bjinho

    ResponderEliminar
  13. Lindo este poema de Alda Lara que não conhecia, aliás, conheço muito pouco sobre ela e aqui me deixas mais uma oportunidade de enriquecimento levando-me a pesquisar sobre esta grande Senhor. E muito bom quando os blogs nos permitem saber algo mais ou recordar assuntos já esquecidos. Muito obrigada, querida amiga e que os teus dias sejam repletos de momentos felizes. Um beijinho
    Emilia

    ResponderEliminar
  14. ~~~
    A VOSSA COLABORAÇÃO E DEDICAÇÃO PROVA QUE TENDES

    UMA APURADA SENSIBILIDADE POÉTICA.

    GRATA PELO APOIO E INCENTIVO.

    ABRAÇOS

    ~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~
    ~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~

    ResponderEliminar
  15. Quem sabe se a nostalgia da terra quente distante com um mar, real e figurado, a interpor-se no sonho da poeta.
    Belíssima publicação, Majo.

    ResponderEliminar